Filosofia; Arte; História; Humanismo e Ecologia

23
Nov 08

Devido a uma qualquer anomalia no contínuo espaço temporal, num fenómeno de fazer inveja a Einstein, tive acesso durante alguns momentos ao passado e como percebi que a janela se tinha aberto em Roma, mais ou menos no início da nossa era e como tinha de pensar rápido, a primeira coisa que me veio à cabeça foi falar com alguém que nos pudesse ajudar na actualidade nestes momentos tão conturbados e tão perigosos pois naquela altura se vivia algo semelhante, e assim, de forma algo estranha, de repente estava na presença de alguém que não reconhecí imediatamente, mas que se apresentou como sendo Epicteto, um humilde discípulo da escola filosófica Stoa (vim a saber depois que queria dizer Pórtico, e só aí percebí o trocadilho) e estas são as palavras que ele me disse em resposta à minha questão (trazia um gravador comigo, nunca se sabe quando vão acontecer fenómenos destes!):

 

O meu nome é Epicteto e penso que seja útil ouvires estas palavras, pois se falase só para dizer trivialidades, preferia ficar calado e não perturbar o dourado silêncio e tranquilidade da natureza:
 

Nasci na Grécia, na altura em que esta era uma província Romana. Tive uma infância rude e difícil e por artes do destino acabei em Roma como escravo. Servi o secretário pessoal de Nero, àquele tempo imperador Romano e que era tão inteligente quanto cruel. O estoicismo corria-me nas veias e percebi que uma moral transcendental como sistema filosófico impunha-se no meio da cada vez mais decadente Roma.

Aprendi a não depender da opinião alheia e a desdenhar honrarias e riquezas. A filosofia estóica ecoava no meu coração que a vida era como uma luta e que a filosofia consistia no triunfo da razão e da vontade sobre as paixões.

Numa oportunidade em que critiquei aquele a quem servia pela sua maldade, valeu-me a tortura e que passo a contar porque penso que se pode retirar algo de útil: Colocaram a minha perna numa qualquer máquina de malvadez, e começaram a torcê-la para que voltasse atrás na minha palavra e me arrependesse por ter dito a verdade. Não só não o fiz como acabei por aguentar com passividade e serenidade o episódio até que, após os ter avisado, a minha perna cedeu e partiu. Ficaram assombrados pelo facto de não ter manifestado o mais mínimo esgar de dor e a partir desse momento, fiquei coxo. A lição que retirei? A incapacitação do corpo não impossibilita de forma alguma a Alma e a sua sede de sabedoria.

Acabei por tornar-me livre e assim obtive a chance de fundar a minha própria escola e perpetuar os ensinamentos que fizeram de mim um homem minimamente digno desse epíteto.

Tive oportunidade (que espero ter aproveitado bem) de transmitir os ideais estóicos a mais pessoas, para além dos meus queridos discípulos, que desde há muito já me acompanhavam. Devo recordar Flávio, a quem conheciam como Arriano, pois foi graças a ele que os meus ensinamentos e as minhas aulas foram passadas a escrito e posteriormente editadas.

O que ensinava era o respeito pelo destino, a renúncia aos bens materiais, dando mais valor aos da Alma, a compreensão pelos defeitos alheios e a fé numa divindade regedora do Universo.

Considero que as coisas têm duas categorias: Umas dependem de nós e outras não dependem. As que dependem de nós são as nossas opiniões, as nossas tendências, os nossos desejos, as nossas aversões, em poucas palavras, as obras que nos pertencem. O que não depende de nós são o nosso corpo, a riqueza, as honrarias, a fama, o poder, enfim, todas as obras que não nos pertencem.

O que quero dizer é que o nosso bem e o nosso mal são da nossa inteira responsabilidade. A verdadeira virtude consiste em suportar e abster-se, não como uma forma de resignação sem sentido, mas sim como uma forma de respeito para com o destino. Liberdade não é fazer o que se quer, pois na realidade existem muitas coisas no Universo (muitas mesmo) irrealizáveis para o Homem: Se amanhã quiserdes ser um leão, uma águia ou um planeta, isso seria impossível, pois de alguma forma isso não foi contemplado para o nosso destino, isso não é próprio do Homem. Liberdade é querer ser melhor e isso sim é realizável e faz parte da natureza do Homem.

Este tem assim duas naturezas: Uma física, do corpo, que temos em comum com os animais e outra espiritual que nos relaciona com os Deuses. Eis o que define os Homens: Os que tendem para as paixões e que são os piores escravos, pois aprenderam a gostar da sua própria cárcere, da sua própria prisão e os que tendem para o elevado, ainda que isso pressuponha um caminho de árdua ascensão. No meio pergunto-me: Quem sou eu? Um pobre desgraçado que vive ainda demasiado preso às questões materiais, mas que reconhece que há um caminho muito mais nobre para o Homem. E isso pelo menos é um ponto de partida. Assim aconselhava os meus discípulos a não aumentarem o número dos brutos.

Reafirmo que a essência do verdadeiro bem está nas coisas que dependem de nós. Se a inveja, a bajulação e o ciúme não tiverem guarida em ti, então não quererás ser general, nem rei, mas sim livre.

 

E depois bum... o portal fechou-se mesmo no momento em que Epicteto terminava. Eu penso que aprendí alguma coisa, espero que vos seja de alguma utilidade... e cuidado: Nunca se sabe quando uma coisa destas vos pode acontecer!

publicado por filósofo às 17:06

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